"Pobres aceitam qualquer coisa"

A nossa classe média pensa que filantropia é sinônimo de transformação social. Por boa fé ou até mesmo por má fé, já que é nítido que mesmo nos momentos mais positivos, os pobres são tratados como sub-humanos, não tendo direito aos benefícios dados às outras classes. Esse sistema esconde uma crueldade disfarçada de bom mocismo que só serve mesmo para promover os supostos benfeitores.

Mesmo a classe média de esquerda (ou talvez ainda mais ela) é, antes de tudo classe média. Predominada por artistas e professores universitários, ambos muito bem remunerados e com um padrão de vida que se não chega a ser de um magnata, ostenta uma visível prosperidade sócio-econômica, não passa, nestas condições, pelo sofrimento das classes trabalhadoras que alega defender.

Quem vive bem de vida tem as condições de fugir da realidade, dentro de seu automóvel onde pode se dirigir para onde quiser. Sai de seus condomínios ou casarões para o trabalho e vice-versa, sempre desviando daquilo que não deseja ver. O carro, assim como as redes sociais que usam quando chegam em casa, mostram uma realidade paralela fofa que os impede de ter o verdadeiro altruísmo.

Essa mesma classe média que não abre mão da fé religiosa e se agarra a misticismos baratos como pseudociências, ocultismo, astrologia e até mesmo o controverso "Espiritismo" brasileiro, marcado pela figura de um esquizofrênico confundido como "médium" e considerado o "maior filantropo do mundo", mesmo sem ter registros de sua atividade filantrópica nem resultados realmente transformadores.

Mas não importa. Como não é para ela, a filantropia desejada por esta classe média deve ser a mais precária possível, pois quem vive bem não está disposto a abrir mão de seu supérfluo para garantir dignidade a quem não tem sequer o necessário.

Numa atitude de crueldade não-estereotipada, essa classe média, por achar que "pobres aceitam qualquer coisa", acabam fazendo uma forma de altruísmo meramente paliativa, que não tira os pobres de sua condição humilhante, não lhes dão dignidade e muito menos garantem um certo nível de emancipação.

É muito fácil você dar qualquer coisa para outra pessoa. Não é para você! Para ti, você reserva as medalhas, para os outros, as migalhas. você fica muito feliz em dar migalhas as outros, achando que é tudo que os outros precisam. No fim, você vai achar que fez uma transformação social quase revolucionária e vai querer o reconhecimento de um super benfeitor.

Não vou condenar os pobres, que vivem em situação desesperadora. Para eles, qualquer ajuda é bem vinda, mesmo de fontes falsas, suspeitas e mal intencionadas. Por nada terem, o pouco que lhes chega, mesmo insuficiente, serve para melhorar a situação cronicamente insuportável.

Mas para a classe média que vive bem em sua confortável vida, com direito a viagens periódicas ao exterior e a bens de certa forma valiosos, o que acontece com os pobres não é de interesse particular. 

A classe média se tornou esquerdista muito mais por ficar bem na foto do que por realmente desejar mudanças sociais. Mesmo que o caos se instale no país, a classe média não será atingida por ele. Caso seja ameaçada disto, tem condições de fugir deste caos.

Isso explica a preferência desta classe média por programas sociais paliativos, mas pomposos como o Bolsa Família. Ajudar paliativamente carrega uma certa emotividade que é prazerosa para quem defende. A verdadeira justiça social é séria demais, sem emotividade e por isso você nunca verá esta classe lutando com insistência por salários mais justos e fartura de empregos plenos.

Até porque para a classe média, que está muito bem em sua vidinha cheia de supérfluos, pobres aceitam qualquer coisa. Dá-se migalhas, comemora-se a chegada das migalhas às mãos dos pobres e no fim tudo fica na mesma. É mais fácil, não exige esforço, abnegação, não mexe nos privilégios das classes prósperas e parece mais bonito e comovente. 

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