O compromisso do Lula é com as alianças e não com o povo

Estamos vivendo numa onda otimista bastante surreal. Acostumados com religiosidade e usando a fé (que não exige esforço intelectual e nem abnegação) no lugar da razão, os brasileiros decidiram que Lula, além de eleito antes mesmo de oficializar a sua candidatura no TSE, vai governar de forma incondicional a favor do povo, supostamente negociando para que todas as suas alianças cedam a favor da população.

Engano pensar assim. Com o pretexto de derrubar o bolsonarismo, talvez inspirado na campanha das Diretas Já da década de 80, Lula tem feito muitas alianças com forças de diversos tipos, incluindo neoliberais e golpistas, consagrando a velha política que só não é considerada como tal porque está maquiada sob o verniz do suposto progressismo defendido em seu discurso.

Mas vamos ser realistas. Ao fazer estas alianças, Lula acaba criando um compromisso não com a população, mas com os interesses particulares das forças aliadas. Como não existe almoço grátis, ao pedir apoio a políticos, empresários e lideranças religiosas, está se comprometendo a satisfazer as vontades deles, a ceder em seu programa de governo para que os interesses das alianças nãos sejam prejudicados.

E a população? A população é só um detalhe. Tradicionalmente, o povo brasileiro não é de fazer cobranças, apenas de reclamar pelas costas quando algo sai errado na política. E mesmo que cobrasse, não existe uma liderança disposta a convencer a população a ir em Brasília e bater na porta do gabinete presidencial exigindo atitude de forma presencial.

Mas as alianças sim, vão estar ali mesmo na porta do gabinete, cobrando de Lula os acordos feitos em troca dos votos conquistados. Lula não pode correr o risco de romper estes acordos, pois a cobrança, além de presencial, envolve gente graúda, com poder de causas estragos no país e na vida de Lula, caso o petista se recuse a satisfazer os interesses das forças com quem se aliou.

É infantil imaginar que Lula estará sempre do lado do povo de forma incondicional. É fácil desagradar o povo e se manter ileso, sem sofrer danos na imagem e na vida. Mas com as alianças políticas, empresariais e religiosas o cuidado deve ser rigoroso.

Pois o menor rompimento dos acordos, a grande mídia é acionada para que se aumente a pressão pela retirada daquele que se recusou a cumprir os acordo. Lula, que já desagrada a classe média por ser nordestino, não ter diploma de faculdade (supostamente não se esforçou como a classe média diplomada) e nem o perfil estereotipado de um estadista nobre, pode se dar muito mal.

Por isso que é perigoso para Lula fazer estas alianças. Na realidade, os acordos feitos irão limitar muito o projeto de governo de Lula, o impedindo de fazer o que está prometendo: uma revolução que acelerará o desenvolvimento do Brasil e acabará definitivamente com todas as complexas injustiças que existem no país desde o seu achamento em 1500.

Ainda mais numa época em que a esquerda mundial está em crise e os EUA estão cobiçando a América Latina, vai ser quase impossível para Lula cumprir o que está prometendo para a população apaixonada pelo petista. Mais certo é Lula cumprir o que promete às suas alianças, fazendo uma versão generosa de um neoliberalismo suave, com projetos sociais de soluções paliativas, disfarçadas sob nomes pomposos.

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