E tudo não passou de uma festinha...

Brasileiros adoram festas. Esta é a nossa tradição, nossa razão de ser. Priorizamos a vida social por entender que em um país cheio de dificuldades - que recusamos a resolver, graças a nossa adesão à lei do menor esforço - devemos depender de outras pessoas para facilitar o nosso caminho, não somente para a sobrevivência, mas também para a satisfação de interesses mais supérfluos, criados pela própria necessidade de prestígio social.

Viver no meio de multidões e agradar a opinião alheia são as maiores prioridades de qualquer brasileiro. Adoramos mais do que qualquer povo a vida social. Até as nossas maiores zonas de conforto (religião, futebol e cerveja) estão relacionados com vida social. Não é por acaso que o Carnaval simboliza bem a nossa cultura peculiar. Nada como uma grande festa para estigmatizar o povo brasileiro.

Os esquerdistas não se consideram gado mas agem como se fossem, seguindo a maioria, graças ao medo da solidão e ao desejo de se beneficiar da ajuda alheia. Se a maioria segue um determinado caminho, mesmo o destino seja o despenhadeiro, é porque parece ser o lado correto. Correto porque é seguido pela maioria. No Brasil, o Espiral do Silêncio é regra absoluta, cláusula pétrea e lei irrevogável.

Por isso nos fascinamos por festas. Queremos festejar, não importa o motivo. Gostamos de futebol porque é o único esporte que termina em festa. Uma festa onde praticamente toda a população participa. E se a maioria participa é porque é bom e correto. E sempre arrumamos um jeito de criar uma festa, para sorrir e para chorar também. O que importa é festejar. Essa é a nossa qualidade no país do Carnaval.

E porque não criar uma festa para declarar nossas preferências políticas? Claro que na nossa ingenuidade acreditamos que tal manifestação festiva seja capaz de mover a política a nosso favor. Como adoramos festas e festas são coisa de maioria, acostumamos a dar uma importância muito maior que a real a festejos, já que nunca imaginamos multidões seguindo juntas a algo fútil, inútil ou nocivo.

As manifestações que vem acontecendo neste ano, supostamente contra Bolsonaro, embora todos pensem ser eficazes para pressionar pela retirada do ditador neofascista, existem apenas para divertir, para fazer as pessoas cantarem, pularem e gritarem juntas. 

São, acima de tudo, festinhas e cumprem apenas a função de entreter as massas, que ingênuas, pensam que estão contribuindo para alguma coisa útil para este país. E não estão. Pois sabemos que as decisões cruciais para a política brasileira dependem das instituições criadas para formalizar qualquer ritual previsto em lei. Instituições que, cá para nós, são secretamente controladas pelo poder econômico.

Essas manifestações, embora com grande adesão de pessoas, na verdade tem sido um verdadeiro fracasso. Os membros das tais instituições formais até estão acostumados com elas e por isso não se sentem pressionados a tomar alguma atitude para derrubar Bolsonaro, já que o ditador não incomoda os interesses da poderosa classe econômica que controla secretamente tais instituições.

Se no passado recente, Dilma caiu, foi muito mais porque ela ameaçou os interesses deste poder econômico, que não hesitou em criar manifestações populares fake, pagando profissionais para forjar indignação popular por algo que era de interesse apenas de uns 50 magnatas brasileiros, mas comungados com os interesses de um Estados Unidos avesso ao desenvolvimento do Brasil.

Ninguém cai no Brasil por pressão popular. A única forma do desejo popular ser manifesto é através da violência, invadir tais instituições e criar grandes estragos nelas. A História mostra que grandes mudanças só vem quando o povo se revolta com seriedade. "Revoltar" com alegria é desejar que tudo continue na mesma, fingindo indignação só para angariar admiração das pessoas ao nosso redor.

Até porque agradar aos outros é a nossa principal meta. Fazer bonito aos olhos dos outros é muito mais importante que mudar qualquer coisa. Até porque brasileiros odeiam mudanças. Mudanças significam o risco de perdermos nosso prestígio social e tudo aquilo que é conseguido com ajuda alheia. Por isso, festejar é mais importante que protestar. 

Mesmo que Bolsonaro nunca saia e até se reeleja, o importante é ficar bem na foto. Para que todos aplaudam a nossa falsa indignação nos dando todos os benefícios que somente uma vida social plena, ativa e constante consegue dar.

Concluindo, as manifestações feitas até agora nada tem gerado efeito político. Nunca conseguem render a repercussão pretendida. Como festejos, meras micaretas, diversão pura, são um sucesso. Como eventos democráticos, essas manifestações se tornaram verdadeiros fracassos. Hora de mudar de tática.

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