O Falso Mito da Favela Linda
O esquerdismo brasileiro se comporta como uma religião, cheio de dogmas e ideias fixas sem sentido que nunca são debatidas, se convertendo em verdades absolutas a serem aceitas na marra. Um desses dogmas é o falso mito da favela linda.
Graças ao predomínio da classe média remediada nas esquerdas brasileiras, a compreensão do cotidiano do povo pobre é visto de forma distante e distorcida. Ao invés de tratar a vida nas favelas como um problema, as esquerdas tratam como um estilo de vida peculiar, com cultura própria e que deve ser não somente respeitada como admirada.
As favelas, que agora recebem o eufemístico nome de "comunidades" (até para reforçar o caráter de "povo autônomo", com características próprias e cultura particular) são tratadas como algo admirável, como uma novidade a ser estudada por inúmeras teses de pós-graduação, não como um problema, mas como um novo estilo de vida a mudar os conceitos de cultura e de cotidiano em nosso país.
É curioso ver que o estudo dos pobres como um povo peculiar (como uma tribo ou um conjunto delas) predomina nos trabalhos de pós-graduação de faculdades, barrando a entrada de assuntos que não estudassem as comunidades e povoados humildes.
Por exemplo, barracos de favela, estudados por arquitetos como projetos arquitetônicos revolucionários, economistas estudando como favelados se viram para sobreviver, linguistas estudando a linguagem dos pobres, jornalistas estudando o que acontece em rádios comunitárias montadas nas favelas, etc.. Parece que para as universidades, estudar os pobres virou a meta de vários projetos de pós-graduação.
Isso esconde uma crueldade tão humilhante e nociva quanto o chamado safári humano, que no fundo é contestado pelos esquerdistas, mas uma consequência natural do mito da favela linda difundido e defendido pela esquerda brasileira. Afinal, se a favela soa como algo tão agradável, porque não admirá-lo como uma atração a ser observada?
Até porque vivemos numa espécie de reedição atualizada da Idade Média. Lá, a diversão era por conta de bobos da corte, que normalmente vinham das classes mais pobres. Desde os anos 90, o entretenimento foi entregue aos mais pobres, com o papo furado de valorização da "cultura de rua" ou "cultura da periferia".
Essa "cultura da periferia" seria, na verdade, uma assimilação das pessoas pobres daquilo que tocava nas rádios que ouviam e aparecia nas TVs que assumiam, criados por produtores e donos de gravadoras e meios de comunicação. Ou seja, era a cultura "de rua" que os ricos queriam que os pobres fizessem.
Por isso que a "cultura de rua" é tão pasteurizada e nada espontânea. Até porque essa "cultura", é uma oportunidade de emprego para o povo pobre, o que compromete a espontaneidade deste tipo de "cultura". Até porque em troca de dinheiro, vale qualquer coisa. até mesmo abrir mão daquilo que se gosta.
Se já não bastasse estar contaminada com referenciais da cultura de mercado, a "cultura das periferias" ainda serve como fonte de renda para os pobres, que vão preferir agradar ao mercado para atrair o dinheiro para sustentar ou subir de vida.
E claro, com a melhoria de vida, vem o inevitável abandono das favelas, pois ninguém gosta de ter uma vida precária. Favela linda só existe para quem nunca viveu nela - ou se viveu, tratou logo de desgravar da memória após sair dela - e enxerga seus problemas de longe.
Isso acaba com o mito de favela linda, pois se favela fosse realmente linda, ninguém gostaria de sair dela. E muitos gostariam de morar nela, incluindo os bem vividos professores universitários que dominam as esquerdas hoje, que só enxergam beleza nas favelas porque não vivem nelas.
O que aconteceria com estes professores universitários deslumbrados com as favelas e povoados pobres se eles tivessem seu cotidiano nas favelas, com precária qualidade de vida e escasso dinheiro no bolso? Onde estaria a beleza de viver em problemas constantes e sem oportunidade de resolvê-los? É uma boa pergunta para os sábios professores universitários responderem.
Até porque, se os professores universitários sabem tanto, devem saber como contornar problemas graves e rotineiros sem um tostão no bolso.
