Causas identitárias: de que adianta colocar um excluído no poder para ele fazer igual ao incluído?
Mas ocorre que as causas identitárias se mostram uma armadilha criada pelos direitistas moderados (liberais) para que alguns setores das classes oprimidas possam ser favorecidos pela sociedade capitalista, dando a ilusão de justiça social (além de aumentar a quantidade de consumidores para os produtos capitalistas, rendendo mais lucros para os magnatas controladores do sistema).
Como envolve beneficiamento das classes oprimidas, os esquerdistas brasileiros acabaram abraçando as causas identitárias como se fossem suas. Esquerdistas mal informados chagam ao ponto de dizerem que a direita moderada "se apropriou" das causas identitárias sem levar em conta de que os direitistas moderados são os autores deste tipo de engajamento.
Mas qual o problema das causas identitárias? Simples, não adianta colocar excluídos em posições privilegiadas se o sistema sócio-político-econômico continua exatamente o mesmo. Sem mudar as relações de injustiça e os papéis das classes sociais neste sistema tradicionalmente injusto.
Isso significa apenas colocar uma nova dinastia na velha monarquia que se mantém. É escolher alguns membros das classes oprimidas para fazer o papel do opressor, exatamente como faziam os opressores de outrora, com pouquíssimas diferenças.
Um dos exemplos mais clássicos do fracassado êxito das causas identitárias é Barack Obama, o negro que conseguiu ser presidente dos Estados Unidos. Negro, mas de alma branca, fazendo exatamente o mesmo papel dos presidentes brancos de outras gestões.
Barack Obama conseguiu mudar o mundo? Não. Os negros passaram a ter um prestígio social digno? Não? Houve uma radical melhoria na distribuição de renda e de direitos no mundo durante a sua gestão? Não. Ele respeitou povos oprimidos do mundo, ajudando-os a ter dignidade e se desenvolver ao invés de torná-los vitimas de guerras sanguinárias? Infelizmente... NÂO!
Inúmeros exemplos de gente oriunda de classes oprimidas que ao chegar no mínimo na classe média remediada, começa a virar as costas aos seus semelhantes. Como se o sucesso sócio-econômico do oprimido fosse uma espécie de transformação física que o converte em um semelhante ao opressor.
Temos ex-pobres, negros, mulheres, gays, deficientes físicos, etc. em posições sociais privilegiadas e não os vemos tentando mudar o mundo. Ao chegar nessas posições, os vemos usufruir alegremente de privilégios que não possuíam antes ("que nunca comeu melado, quando come se lambuza"), sem mover um só dedo para tentar mudar este sistema tradicionalmente injusto.
O que significa que as causas identitárias são uma farsa. Um engodo que ilude as esquerdas brasileiras, mas que agrada a muito quem já está perfeitamente estabilizado nas classes médias que arrancaram o esquerdismo das classes operárias, estas francamente traídas pelas lideranças de esquerda, felizes com a relativamente vasta renda que entra em suas bem protegidas contas bancárias.
É uma bela forma de dizer que se está mudando o mundo sem mudá-lo de fato. Mudar o mundo na prática geraria guerras sangrentas por irritar as classes dominantes. Classes que representam bem as ultrapoderosas elites que criaram as causas identitárias como um prêmio de consolação aos oprimidos que conseguiram se ajoelhar quietos ao sistema, como verdadeiros carneirinhos obedientes.
Iludidas pelo mito de que somente a colocação de oprimidos em situações que somente os antigos privilegiados poderiam estar iria mudar o mundo como um todo, as esquerdas acabam por priorizar as causas identitárias como mecanismo perfeito para a mudança de todo o mundo.
Coitados desses esquerdistas. Não conseguem perceber que as causas identitárias são uma tradução perfeita do pensamento elitistas que diz que "temos que mudar para manter tudo na mesma". É tirar os anéis para preservar os dedos. É colocar o oprimido no poder não para ele acabar com a opressão, mas para criar novas formas de opressão.
Até porque a ganância faz parte do instinto humano. Se oprimidos são seres humanos, no poder, serão tão gananciosos quanto os demais seres humanos. Não seria melhor acabar coma ganância primeiro (criminalizando-a por exemplo), do que dar poder a outros seres humanos que, empoderados, farão exatamente a mesma coisa que os poderosos de outrora?
Dar voz e poder a oprimidos de nada adianta. Oprimidos querem dignidade e qualidade de vida. Mas isso parece pedir demais, pois atrapalha os interesses de quem está no poder. Incluindo os interesses particulares dos poucos e privilegiados ex-oprimidos que "chegaram lá".
