A admirável imaturidade das esquerdas brasileiras

As esquerdas brasileiras mudaram muito nos últimos anos. Não há mais o trabalhismo sério de outrora. Há, em seu lugar, uma festividade quase mística da classe média muito bem remunerada e que não precisa mais lutar por melhoria salarial (a não ser que esteja insatisfeita em morar em condomínios de luxo, andar de carrões e ter filhos estudando no exterior, além da vasta coleção de diplomas de doutorado).

Com isso, a grande maioria dos esquerdistas divorciou definitivamente do mundo real. O excesso de otimismo e a passividade dominam na mentalidade e nas atitudes dessa turma. Apesar de estarmos em um país falido, em escombros, o otimismo demonstrado acaba por estimular não apenas a passividade como a falta de urgência para manifestações. Mesmo sendo estas manifestações meras micaretas e não lutas sérias.

E não adianta fingir que as esquerdas são representadas pelas classes trabalhadoras. Isso não é verdade. Traídas pelas esquerdas e cada vez mais realista, as classes trabalhadoras há muito migraram para a direita moderada, na procura de alguém que fale de assuntos de seu cotidiano, não de maconha, travestis, veganismo e astrologia. Gente que não acha importante Lula posar de sunga para lacrar redes sociais.

É evidente a falta de maturidade das esquerdas brasileiras, agora simbolizadas pela classe média remediada. Visitando perfis de esquerdistas nas redes sociais, é impressionante a criancice de inúmeras postagens. Além das citadas preocupações supérfluas, e do otimismo em relação ao futuro próximo do país, há um fanatismo bastante cego em relação a Lula.

Segundo seus fanáticos admiradores, Lula está no comando de todo o anti-bolsonarismo e irá convencer poderosos - e gananciosos - magnatas a cederem para que o "Socialismo" (a.k.a Capitalismo mais generoso, © Maynard Keynes)  se instale no Brasil e que obrigue os mais ricos a ceder dinheiro para os mais pobres. Lula aparente um misto de Robin Hood com Dom Quixote. Com popularidade de um Dom Juan ou Casanova e a eloquência de um Barão de Munchhausen. 

O gado de esquerda (gado é o que segue a maioria) ignora a realidade caótica do país e o fato de que Lula está muito longe de ser líder de alguma coisa. Há suspeitas sérias - discretamente reveladas pelo ato falho do empresário Laurence Pih - de que Lula cedeu para poder ser libertado das 20 acusações, negociando para que o sempre influente Grande Capital o permitisse de concorrer para a presidência.

Não é um cenário fácil para a volta da esquerda ao poder. Ainda mais que os EUA está de olho na América Latina, doido para saquear o que pode, e principalmente o que não pode, de recursos naturais na região. Se a Argentina, que elegeu a esquerda de forma mais tranquila, está em crise com a vitória da direita no congresso e o desentendimento entre presidente e vice, imagine o sucateado Brasil.

A imaturidade dos esquerdistas brasileiros tem muito a ver com a felicidade cotidiana de quem recebe um bom dinheiro em suas contas bancárias. A classe média, majoritariamente representada por professores universitários com doutorado, e portanto, um bom salário e reconhecimento social, sequestrou a esquerda e agora impõe o seu jeito de pensar às ideologias consideradas progressistas.

Como a classe média não tem eu seu cotidiano os problemas da classe trabalhadora, é muito fácil fugir do mundo real e além de priorizar coisas supérfluas, ostentar um otimismo sem tamanho que choca violentamente contra os fatos reais de um cotidiano de terra arrasada.

Essa imaturidade das esquerdas vai cobrar dela um preço bem caro. É bom aguardar, pois a infância tem prazo para se encerrar. E a vida madura tem desafios nem sempre fáceis de encarar. E normalmente estes desafios costumam ser bem dolorosos. Quem viver, chorará. 

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