Ainda sobre o problema da Cultura vs Entretenimento
Parece que por medo, ou por achar desglamourizada, as esquerdas detestam usar a palavra entretenimento. Preferem "cultura" e "arte", pois soa algo superior, mais pomposo, mais respeitoso. Mesmo que se refira aqueles "funkeiros" chulos que sob barulhos irritantes que lembram motor de carro prestes a pifar, canta letras sem pé nem cabeça sobre sexo ou violência.
As esquerdas acham que vivemos no auge da produção cultural, quando fatos comprovam que o auge mesmo foi a segunda metade da década de 60 do século XX. Pode se dizer que lá, sim, tivemos uma produção riquíssima, que estimula a sensibilidade e a racionalidade em níveis perfeitos, sem se preocupar com vendagens ou com agradar mentes medíocres.
Desde o início dos anos 70, houve uma queda gradual na qualidade da produção cultural, já que a indústria do entretenimento, controlada por forças político-econômicas conservadoras, decidiu, de forma gradual, retornar a missão alienante da produção cultural pré anos 50. Para eles, a chamada "cultura" é para divertir, e não para conscientizar.
Segundo as forças conservadoras, o tempo livre nunca pode ser utilizado para pensar. É um perigo para as classes dominantes (que controlam o que as esquerdas chamam de "cultura", mas de forma secreta, nas profundezas dos escondidos bastidores).
Ingenuamente,as esquerdas ignoram este processo - ou o acham benéfico - achando que tudo que pode ser encaixado no rótulo de "arte" e de "entretenimento", nasce da alma do "artista" quando na verdade é só um meio de ganhar dinheiro. Esquecem as esquerdas que, quando você faz algo visando dinheiro, a espontaneidade desaparece.
Para se ter uma ideia, adivinhem o que atrai mais público (e consequentemente mais dinheiro)? Rock progressivo ou "funk" carioca? Certamente que, se você quer ganhar mais dinheiro, você fará "funk" carioca. Mas você detesta "funk" carioca e adora rock progressivo! Mas você precisa de grana e virou "funkeiro" para isso! Eu pergunto: onde está a arte e a cultura quando se faz o que não gosta, o que não faz parte da sua personalidade?
A arte e a cultura vem da espontaneidade. Se você precisa de dinheiro, não está fazendo nem arte, nem cultura. Está fazendo ENTRETENIMENTO. Você está produzindo algo feito para distrair, para divertir e não para transmitir algo que possa ser útil ao aprendizado alheio. Arte e cultura trabalham com sensações mais nobres e com intelecto. Sem isso, não há como falar em arte ou cultura.
Mas para as esquerdas brasileiras, tudo que deveria se encaixar do rótulo de entretenimento merece ser considerado arte ou cultura. Só fazer as pessoas sorrirem por si só já significa arte ou cultura. Qualquer coisa mesmo. Até as armações montadas por empresários gananciosos e mercenários, são tratadas como se tivessem a pureza de espontaneidade típica dos mais sensíveis poetas.
Esta glamourização do entretenimento, transformado pelas esquerdas como "arte" e "cultura" impede que surja no Brasil, uma crítica cultural, com debates que visam a discutir a qualidade e as intenções da produção cultural no Brasil e no exterior.
Esta missão de analisar a qualidade cultural foi "sequestrada" pela direita e só ela está disposta a discutir qualidade cultural, apesar de infelizmente, estar contaminada com preconceitos elitistas, repetindo o cacoete típico da esquerda de medir a qualidade musical pelo níveis econômicos e de escolaridade da plateia. Quando as obras é que deveriam ser analisadas .
Infelizmente há muita confusão no que se refere a arte, cultura e entretenimento. Tratadas de forma subjetiva, é frequente a confusão entre gosto e valor cultural. Para as esquerdas, se faz o povo sorrir, é válido, por mais irritante e malfeito que seja.
Por isso que a qualidade cultural cai cada vez mais e estamos muito longe de repetir a maravilhosa experiência da segunda metade da década de 60, uma época que, se depender das esquerdas brasileiras, nunca mais voltará. Até porque aqueles que não tem vocação para criar algo brilhante já sequestraram o microfone, sob os aplausos das cirandeiras esquerdas de nosso país.

